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É indispensável valorizar nossas escolas, Edgar Flexa Ribeiro*

Edição Guia escolas

Nos últimos anos, o Brasil realizou um extraordinário e gigantesco esforço para oferecer escolas a todas as suas crianças. Chegamos, agora, a ter matriculadas mais de 90% das crianças em idade escolar obrigatória.
E, no entanto, nunca se criticou tanto a escola brasileira e o professor brasileiro, como se fosse possível fazer um avanço de tal monta, em tão pouco tempo, sem sacrificar alguma coisa – sobretudo quando sabemos que nenhum esforço foi feito para recrutar, expandir e qualificar melhor o magistério antes de se tornar inevitável a expansão do Ensino Fundamental. Ninguém deveria estar surpreendido pelo fato de as escolas que surgiram estarem abaixo de padrões desejáveis de qualidade. Só poderia ser diferente se medidas tivessem sido tomadas antes da multiplicação das matrículas.
Mas o fato é que a expansão do ensino no Brasil não se deu como decorrência de uma decisão das autoridades, de um plano, projeto ou planejamento com intenção de aumentar as oportunidades de acesso à educação formal.
Na verdade, a busca da escola foi o efeito não antecipado de providências muito diferentes. Quando o Brasil iniciou seu processo de industrialização – esse sim, fruto de um projeto deliberado e explicitado à época, na década de 1950 –, cresceu, intensamente, a necessidade de mão-de-obra, sobretudo nas periferias urbanas onde as indústrias estavam se instalando.
Em decorrência, seguiu-se um desenfreado processo de urbanização. A população brasileira migrou do campo para as cidades porque estas apresentavam uma promessa de futuro melhor do que o interior.
O Brasil tinha 70% de sua população no campo e 30% nas cidades. Em pouco tempo o País inverteu essa relação, com mais de 70% da população passando a viver em área urbana. Tudo isso se deu entre a década de 1950 e hoje – ou seja, duas gerações apenas.
Não foi pouco o que nosso país conseguiu. Mesmo desordenado, sem regras e com todas as dificuldades, o Brasil cresceu e se transformou. O resultado dessa expansão urbana é o que se vê hoje em nossas grandes cidades: ocupação desorganizada do solo, desordem, a falta de transporte coletivo de massa, de saneamento e de habitação.
Nunca é demais lembrar que, nessa época, certo menino partiu de Garanhuns, em Pernambuco, a bordo de um caminhão, tendo por destino São Paulo. Na recentemente implantada indústria automobilística, aquele menino transformou-se em metalúrgico, em líder sindical, para se eleger posteriormente presidente da República. O que, tendo sido possível, é já um belo depoimento que o Brasil dá sobre si mesmo quanto às oportunidades que oferece a seus filhos.
Mas aqueles brasileiros que viviam no campo por várias gerações, sem escola, para sobreviver nas cidades não poderiam ser privados de ensino básico. A urbanização impôs a necessidade da escola. O Brasil viu-se obrigado a oferecer ensino não porque quisesse, mas porque os brasileiros, recentemente urbanos, precisavam e quiseram a escola. Foi uma conquista.
O crescimento acelerado “destruiu” tudo o que se conhecia como magistério, equipa-mento escolar etc., e autoridades imprevidentes tiveram de se virar para construir a escola que se podia fazer. Essa escola, tão criticada hoje, foi aquela que o Brasil pôde realizar nesses últimos 25 anos.
Se não dermos valor a ela, se não soubermos fazê-la estimada e respeitada por aqueles que só agora têm oportunidade de freqüentá-la, dificilmente vamos conseguir melhorar o trabalho que lá é feito. Não é nem de longe a melhor escola, nem o melhor magistério. Mas depreciada a escola, e deprimidos seus professores, como se vai melhorá-los?
Nessa hora, não se pode apenas atribuir erros passados, apurados a posteriori em provas indiscriminadamente aplicadas, que pretendem reduzir uma realidade complexa a um exame urdido nos gabinetes brasilienses.
A culpa, se culpa há, não é tanto da escola e do professor que o País construiu e formou. Foi erro grave sim, mas cometido por gerações passadas, ao descuidar do ensino e da educação do brasileiro, entretidas em tergiversar sobre esse assunto e a desmanchar a cada década o que se fez antes.
Quem vai respeitar o ensino? Só fazem falar mal dele, das escolas e do professor! Como isso vai soar aos ouvidos de um prefeito nos rincões brasileiros? Na ponta de uma cadeia de desânimo e desalento, Sua Excelência vai dizer que tem alunos que não existem, para receber mais verbas federais para educação e gastá-las como bem entender. Quem vai querer ser professor? Mesmo bem pago, rapidinho vai se cansar de ser mal falado e pedir ajuda a um deputado ou vereador na sua transferência para um cargo burocrático – esse filme já se viu antes…
Em resumo, se queremos melhorar o ensino, que se preze o que está sendo feito e quem o está fazendo. Não mais para apenas nos tranqüilizar com belos prédios, projetos fantasiosos e pirotecnias estagnadas no papel em que são lançadas, mas para melhorar, num trabalho que deverá ocupar as próximas gerações. Ou então vamos apenas fazer de novo o que fazemos há mais de 40 anos, e começar a discutir a próxima Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – o que nos manterá ocupados, fingindo que fazemos alguma coisa.

*Presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio de Janeiro

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