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E viveram feliz para sempre… Com equilíbrio, paz e interesse pelo conhecimento

Edição Guia escolas

Com raras exceções, as crianças já despertam de manhã, às vezes de madrugada – graças ao horário demasiadamente cedo das aulas –, e entram no ritmo enfurecido e perturbador da correria do dia-a-dia dos pais, da cidade que não pára e só faz crescer, das cobranças sobre-humanas do mundo atual.
Quando chegam à escola, é a mesma coisa. O corre-corre cotidiano tem invadido as salas de aula, e parece que a cada dia começa mais cedo a preparação para o vestibular, para o mercado de trabalho. Imagine os alunos do 1º ano do Fundamental, que em vez de pensarem em brincadeiras, em diversão e no mundo do faz-de-conta, irritam-se com a baixa velocidade da internet ou preocupam-se com o modelo obsoleto do celular lançado há um mês. Isso, hoje, pode parecer exagero, mas nem tanto.
Para quebrar o ritmo das exigências de um mundo globalizado, pós-moderno, e colocar as crianças em estado de equilíbrio, de relaxamento e contemplação, uma receita antiga, de muito antes mesmo dos tempos das avós ou bisavós, se apresenta como solução: a contação de história. Mas a escola seria o lugar ideal para isso, o melhor, há tempo para essa atividade na escola? A resposta vem da Grécia Antiga.
A palavra “escola” vem do grego, scholé, e significa lugar do ócio. Na Grécia Antiga, os filósofos construíram as escolas porque diziam que era preciso haver ócio, tempo livre para aprender sobre a natureza, estudar, ler, brincar, trocar histórias, fazer ginástica. Para os gregos, a escola servia para contemplar, e, nesse tempo livre da “não-correria”, o ser humano pode crescer espiritual e intelectualmente. As histórias entram nesse âmbito, ou seja, é o momento do equilíbrio, da respirada, do relaxamento.
Lidas ou contadas, as histórias estão intimamente ligadas à literatura, seu hábitat natural. Muitas escolas, livrarias e eventos estão lançando mão desse recurso, como forma de oferecer mais um chamariz à atenção das crianças e dos jovens, e até dos adultos, pois, afinal, quem é que não gosta de uma boa história?
Para o doutorando em Educação e apaixonado pela literatura infanto-juvenil, Ilan Brenman, que atua como contador de histórias, escritor, palestrante, consultor e formador de professores, a contação de história tem o seu valor por si só, e não deve perder sua essência, que é a arte.
“Acho bacana as escolas, de Norte a Sul do País, começarem a pensar nessa questão da contação de histórias, porque essa pressa do dia-a-dia também recai sobre as escolas, sobre as crianças”, diz Brenman. “Quando a escola abre um momento de contação de história, deveria pensar no contexto de arte, porque a história é arte. Para a arte impactar um ser humano, deve ser gratuita, ou seja, não querer nada em troca.”
Brenman refere-se às atividades que muitas vezes são atreladas à contação de histórias. É comum ocorrer nas escolas esse tipo de “casamento”, ou seja, as crianças são contempladas com as histórias, porém, em seguida, são cobradas em relação a essa atividade por intermédio de questionários sobre o enredo da história contada, provas, produção de desenhos etc.
“Quando a escola vai fazer a contação de história, a criança tem todo o direito de não querer ouvir. É incrível a gente falar isso, mas é verdade. Mas se a escola não adota essa postura, a criança começar a fazer uma série de ligações, ou seja, começa a relacionar a contação de história com cobrança. Enquanto a criança é pequena, isso é normal para ela. Mas quando começa a crescer, ela vai projetando: história é livro, livro é cobrança, então, adeus, livro, fique longe de mim. Ela se afasta do mundo da literatura quando o adulto conta a história e cobra alguma coisa em troca. Nós precisamos mostrar para a criança que a história vale por si só. Não existe criança no mundo que não goste de ouvir uma história. Não só criança, mas adulto, jovem e bebê não têm idade”, defende Brenman.

Divertimento e prazer com a literatura
Da mesma forma que a contação de história pode ter um relacionamento de prazer e descontração com as crianças, a leitura de um livro assume postura idêntica. As crianças devem ter livre acesso aos livros, se divertirem com eles, tê-los como brinquedos. É nessa brincadeira que descobrem seus autores e livros preferidos e pedem para os pais lerem essas obras para elas.
A liberdade no mundo das histórias causa uma aproximação com o mundo das letras, da literatura. Ter crianças mais próximas do mundo da literatura equivale a leitores mais interessados de uma maneira geral e, conseqüentemente, que estudam mais qualquer matéria, porque têm desejo pela letra, desejo pelo conhecimento.
Outro ação que deve ser evitada, tanto em casa como nas escolas, é a sacralização dos livros, porque, como todo objeto de consumo, o livro, quando usado, pode estragar, ter suas páginas amassadas ou sujas. Mas livros nesse estado são sempre um bom sinal, pois foram usados.
“É difícil a escola compreender isso. A maioria acha que é uma anarquia, mas, na verdade, a anarquia de verdade é o que está acontecendo hoje, com pessoas cada vez mais afastadas da literatura. Ou seja, as pessoas fazem o ‘feijão-com-arroz’, só lêem quando vão fazer prova ou têm alguma atividade para responder. Enfim, quando terminarem o período da escola, não vão mais querer saber de leitura e vão odiar para sempre a literatura, porque para elas, isso passou a ser sinônimo de trabalho, de obrigação, o que é uma pena”, lamenta Brenman.
Para ilustrar essa defesa da liberdade na literatura, que propicia o desenvolvimento não apenas do gosto pela leitura, mas também da imaginação e da criatividade, o escritor e contador de histórias Ilan Brenman vale-se de uma das personagens ícone nesse quesito. Em uma biografia de Albert Einstein, pinçou um pensamento do físico, registrado numa carta para um amigo, no qual afirma: muito mais importante do que o conhecimento é a imaginação.
“Quanto mais ficção e mais imaginação, em qualquer disciplina, mais a criança vai ter o cérebro aberto para receber a parte formal. Os grandes pensadores, os gênios, foram muito criativos e tiveram muita imaginação. O Einstein, por exemplo, dizia que ganhava muitos livros dos pais e lia muito”, diz Brenman. “Quando um professor de Matemática vai dar sua aula, para qualquer idade, até mesmo no Ensino Médio, porque adolescente ama histórias, somos nós que fazemos o favor de cercear a literatura para eles com o vestibular, pode iniciar com uma contação de história que aparentemente não tem nada a ver com o conteúdo daquele dia, como uma poesia, um fato interessante da vida dele, a história de um teórico como Pascal, ou até deslocar totalmente o tema, ler o trecho de um romance.”
Segundo Brenman, os jovens gostam de histórias, apenas é necessário saber fazer com eles a “ponte” entre literatura e prazer, porque, dessa forma, até as listas de livros obrigatórios dos vestibulares ficam interessantes. Quando o professor faz isso, se conecta com os alunos de for-ma muito intensa. A classe fica aberta para receber a parte formal que virá em seguida, e a assimilação é maior.
“Isso vale para qualquer matéria. Os professores que conseguem contar histórias em suas aulas têm os alunos na mão, mais próximos de si, em um diálogo constante”, afirma o escritor e contador de histórias.
E criatividade e bom senso também devem partir do próprio professor. Um exemplo usado por Brenman para mostrar como pode ser desastrosa uma opção equivocada do professor é a Mitologia Grega. O professor pode simplesmente escolher um bom livro sobre esse tema e pedir para que os alunos o leiam para, posteriormente, sabatina-los numa prova. Correrá o risco de afastar das lendas daquele país mediterrâneo muitos alunos, pois a imposição da leitura e a prova tornam-se “sacrifícios”. Outra maneira de ministrar tal conhecimento seria contando, inicialmente, algumas histórias da Mitologia Grega, estimulando a curiosidade dos jovens pelo tema.
“Eu não conheço nenhum jovem que não goste desse tema. A autora dos livros de Harry Potter, J. K. Rowling, tirou os nomes dos personagens da Mitologia Grega, como Hermione e Cérbero, por exemplo. Fala isso para um adolescente fã de Harry Potter. Ele irá ler a Mitologia Grega inteira”, conta Brenman. “Mas para fazer essa ponte, o professor tem de gostar disso. O professor precisa desejar história para que o aluno também deseje; tem de desejar literatura, para que o aluno tenha desejo de literatura.”

Quem conta um conto aumenta um ponto
Apesar de não buscar nenhuma finalidade outra a não ser a contação de história por si só, como arte, Ilan Brenman percebe inúmeros efeitos e benefícios causados pela sua atividade. Segundo o escritor, ele não conta suas histórias pensando na questão da Educação, com fim pedagógico, como abordar a questão da morte ou o problema da diurese com as crianças, e é justamente por não pensar nesses benefícios, não buscar esses efeitos, é que eles acontecem.
“Eu levo livre, solto, escolho boas histórias da tradição oral, contos de boca, milenares, pois se ficaram até os dias de hoje é porque têm coisas boas para contar. Quando as crianças começam a ouvir as histórias, eu reparo que, na parte técnica da coisa, que apesar de não procurar acaba acontecendo, o repertório verbal aumenta de maneira considerável, elas incorporam palavras novas, situações novas, começam a falar mais, sedimentam valores. E eu não busco nada disso, mas a história traz isso com ela, em seu corpo. As histórias servem de conselheiras, causam fisiologicamente um relaxamento, algumas crianças até adormecem”, explica Brenman.
Para os professores interessados em começar a contar histórias em suas aulas, uma importante informação refere-se ao perfil necessário para essa tarefa e o que fazer para se aperfeiçoar na tradição da oralidade. Pasmem, mas não é preciso nem um nem outro. Todos os professores são contadores de histórias.
Os seres humanos contam histórias há muito tempo. As avós, bisavós, o matuto contador de causos, nenhum deles, pelo menos a maioria, fez curso de teatro ou curso para contar histórias porque isso era uma prática comum na sociedade e que foi se perdendo por causa da pressa, da correria, da coisificação de tudo.
“Ao longo dos encontros que já realizei, acho que já passaram cerca de 300 mil professores, de todo canto do mundo. Em mais da metade desses encontros, vinha uma demanda de professores me perguntando se eu iria ensinar técnicas, as lições para se tornar um contador de histórias. Eu sempre respondo que é como ensinar alguém a amar. Não se ensina ninguém a amar ninguém, porque o amor está dentro de nós e de repente é despertado. Técnicas servem para o pessoal de teatro, para profissionais. Eu sou um contador urbano de histórias, é a minha profissão, e obviamente eu tenho esse conhecimento. Mas as pessoas que querem fazer isso numa creche, num hospital, na escola, em casa, pais e mães, para usar no dia-a-dia, não é necessária técnica. Basta fazer com amor, escolher boas histórias, parar um pouco com a correria da vida, olhar para os filhos. Abra um livro, comece a contar a história, os filhos ou os alunos não querem teatro, pirotecnia, não é isso. A voz é aquela de cada um, e sem querer nada por trás da história, sem cobranças. Compartilhe boas histórias, podem ser da sua própria vida ou de um livro. Todo mundo tem essa capacidade”, ensina Brenman.
Além de encontros em escolas, empresas e instituições, Ilan Brenman também realiza cursos em espaços específicos, como na Livraria da Vila, em São Paulo, aberto ao público em geral, bastando inscrever-se com antecedência.
Na parte da oralidade, ele tem catalogadas mais de 700 histórias, todas memorizadas, nenhuma escrita. Seu repertório foi construído ao longo de 16 anos de atividade, por intermédio da leitura de livros nacionais e importados. E essa facilidade para memorizar acontece porque essas histórias fazem parte da tradição oral, o que significa que foram contadas antes de serem escritas e têm uma estrutura que permite essa memorização.
“Na tradição oral, a história tem um esqueleto, e o corpo desse esqueleto, os órgãos internos, a pele, a cor dos olhos, eu coloco a cada evento, vou reconstruindo, recontando. Era assim que os contadores antigos faziam, e por isso que quem conta um conto aumenta um ponto. Os detalhes vão mudando, e por isso aparecem histórias parecidas em diferentes lugares do mundo, uma história da África é parecida com uma da China. Mudam a pele, os olhos, a cor, mas a mensagem é a mesma”, conta Brenman.
Como escritor, Ilan Brenman já publicou 19 livros. Conta que, na literatura, sua criação tem três segmentos. O primeiro é o reconto, que são as histórias que já conta há vários anos e decide recontar no papel, do jeito dele, como, por exemplo, As Narrativas Preferidas de um Contador de Histórias. A segunda frente é a produção ficcional. “São coisas que vêm da minha cabeça, do meu coração, da minha alma, e eu coloco no papel, como o livro A Dobradura do Samurai, que conta a história de um guerreiro que faz origami”, diz o contador de histórias. E a terceira frente tem a ver com o cotidiano do escritor, principalmente acerca da convivência com as filhas. “Depois que elas nasceram, detalhes e coisas simples da vida das duas me inspiram, como os livros Clara, nome da minha filha, Conversa pra pai dormir, e A Festa de Aniversário, que fala do dia em que uma menina, na verdade, a minha filha mais velha, acordou, às 6 horas da manhã, ansiosa para ir à festa de um amiguinho. Enfim, desse meu cotidiano de pai, nasce a ficção”, revela o autor.
Há cerca de quatro anos, juntamente com a Livraria da Vila e a chef Carole Crema, Ilan Brenman criou o projeto Degustação com Histórias, que mescla alta gastronomia e histórias de diversas regiões do mundo, além de apresentações culturais, como música e dança, dos lugares abordados pelos contos.
A relação completa das obras literárias de Ilan Brenman e suas atividades como consultor, palestrante e formador de professores podem ser conhecidas no site www.ilan.com.br, onde estão, também, breves filmes de suas performances em algumas contações de história.

Por Vagner Apinhanesi

Publicação:

Sobre o autor

Vagner Apinhanesi

Jornalista na Editora Educacional.

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