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Intimidação, humilhação e difamação quebram barreira do virtual

Edição Guia escolas

O fenômeno da violência vem ganhando cada vez mais visibilidade social. Diariamente, os meios de comunicação nos bombardeiam com cenas de violência e não é de se estranhar que a questão da segurança seja uma das maiores preocupações do brasileiro, como apontam as pesquisas realizadas pelo Ibope nos últimos anos.

No dia 5 de maio de 2011, foi apresentada em audiência pública a pesquisa Mapa da Violência elaborada pelo Instituto Sangari. A pesquisa revelou que os crimes no Brasil são praticados principalmente contra jovens.

Diante desse cenário, os pais vivem temerosos em relação à segurança dos filhos e, por isso, quando veem crianças e adolescentes no computador ou em outro dispositivo tecnológico têm a falsa sensação de que eles estão mais seguros. Raramente cogitam que os filhos podem ser alvos de violência on-line ou mesmo se valer destes meios para agredir o outro.

Nesse sentido, o cyberbullying é uma temática extremamente relevante que merece destaque. Em plena Era Digital, temos inúmeras razões para refletir sobre o assunto e um longo caminho a trilhar na questão do papel da escola e dos pais neste contexto.

O cyberbullying é a prática do bullying on-line – pela internet, celular e demais dispositivos tecnológicos usados com o propósito de constranger o outro, ameaçar, rotular, tornar alvo de humilhação. As vítimas dos cyberbullies (agressores on-line) são alvos de todo tipo de declarações falsas divulgadas com o intuito de intimidar, humilhar e difamar.

Abalo da autoestima, distúrbios psicológicos, depressão, ansiedade, são apenas algumas das  consequências do cyberbullying. A internet tem o poder de potencializar a humilhação, deixando marcas profundas nas vítimas deste mal. Os ataques têm efeito devastador, acabando com a autoconfiança do indivíduo e em casos extremos levam ao suicídio,  já que as agressões podem ser propagadas  instantaneamente a todas as pessoas que a vítima conhece.

Uma vez que esse conteúdo é publicado na rede, imagens, textos e vídeos, podem ser copiados e repostados sem o menor controle, o que invariavelmente faz com que os casos de cyberbullying tomem proporções gigantescas. Impedir que estas mensagens sejam acessadas e difundidas é praticamente impossível.

 

Quem são essas pessoas que se escondem atrás da internet?

No mundoshutterstock_88974343 off-line, no dia a dia dos colégios, a maior parte das vítimas do bullying é atacada por alguma característica física, além de normalmente ser introvertida, tímida e com mais dificuldade para reagir. Já os agressores, em sua maioria são indivíduos impulsivos, irritados, intolerantes e com a necessidade de se impor por meio da força física e da ameaça.

O surpreendente é que a internet não muda apenas o espaço onde o bullying é praticado, neste ambiente transforma-se também o padrão dos agressores. Um estudo realizado pelo psicólogo infantil Shane Gallagher, do Instituto de Psicologia Educacional de Cambridgeshire (Reino Unido), divulgado em janeiro de 2011, monitorou mais de 230 adolescentes de Ensino Médio, questionando suas experiências e envolvimento com o cyberbullying. A pesquisa também monitorou os pais dos jovens sobre o envolvimento de seus filhos com o cyberbullying.

A análise do estudo chegou às seguintes conclusões: as meninas são o maior alvo dos cyberbullies, enquanto os meninos são mais propensos a sofrer e praticar bullying tradicional. Além disso, quem é vítima do cyberbullying tem mais chance de se tornar um cyberbullie, isto porque a ideia de anonimato trazida pelos meios digitais serve de motivação para a vítima reagir e se vingar dos agressores. Quanto aos pais, a maioria não tinha ciência das consequências e da gravidade destas agressões e, por vezes, sequer sabia que isso era uma realidade na vida dos filhos.

O Brasil também faz pesquisas nessa vertente. Em 2010, a ONG Plan analisou 5.168 alunos de escolas públicas e particulares. O estudo demonstrou que o bullying atinge 17% dos estudantes (incluindo vítimas e agressores). A maior incidência dos casos de bullying foi observada em alunos dos 5os e 6os anos.

Outro estudo realizado no Reino Unido, pela Universidade Anglia Ruskin, divulgado em 1º de agosto de 2011, entrevistou 500 adolescentes entre 11 e 19 anos, chegando à conclusão que as meninas são as maiores vítimas do cyberbullying por meio da internet, redes sociais e/ou celular. Além disso, dois terços dos entrevistados afirmaram já ter conhecido alguém vítima do cyberbullying. O dado mais expressivo aponta que um a cada cinco adolescentes é vítima desse tipo de violência.

 

Desafios da Escola e dos Pais

A violência é um problema histórico e segundo Cléo Fante, educadora e autora do livro Fenômeno Bullying: Como Prevenir a Violência nas Escolas e Educar para a Paz, o bullying é uma das formas de violência que mais crescem no mundo, logo, o grande desafio das escolas é desbanalizar essa conduta e superar o senso comum que por vezes vê o bullying como brincadeiras que fazem parte da experiência escolar.

As agressões não são meras brincadeiras; nelas estão travestidos preconceitos e violências. Uma postura passiva ante a violência é algo inaceitável, sobretudo, em um local que privilegia a reflexão e a criticidade.

Agressões físicas e psicológicas podem causar uma série de distúrbios. O abalo da autoestima afeta na construção da autoimagem e em muitos casos acarreta problemas que acompanharão as vítimas das agressões até a vida adulta.

O bullying já é considerado um problema de saúde pública e deve ser tratado como tal. Os professores que estão em contato direto com os alunos devem ter o olhar treinado para perceber e intervir de forma positiva, mediando conflitos.

Na maioria das vezes, o cyberbullying ocorre fora da escola, no entanto, como a intenção do bullying tradicional e do virtual é a mesma, podemos travar uma luta contra os dois, conscientizando a todos sobre a importância de se combater tais práticas.

Um passo importante para que a escola tenha êxito nesta empreitada é a formação de seu corpo docente e uma estreita parceria com os pais. De forma geral, tanto no âmbito escolar quanto no familiar, há um grande despreparo em relação às novas tecnologias. Não é raro vermos pais e professores tão ou mais leigos que crianças e adolescentes, e dessa forma proteger os alunos e filhos dos perigos on-line se torna uma tarefa difícil.

O que fazer então? Proibir o uso da internet? Limitar seu uso, principalmente, no que tange às redes sociais – Orkut, Facebook, Twitter etc.?

Estas não são boas opções. Antes de cogitarmos qualquer tipo de proibição, seja na escola ou seja em casa, devemos nos informar e ver também os aspectos positivos que o bom uso da
internet proporciona. A internet permite que os usuários busquem informações sobre os mais diversos assuntos, pesquisem sem depender exclusivamente de idas às bibliotecas, se entretenham, além de interagirem de forma positiva com outras pessoas.

Cabe aos pais e escolas tomarem precauções para se proteger de pessoas mal-intencionadas e educarem crianças e adolescentes a terem o mesmo cuidado. A informação e o diálogo ainda são a melhor forma de prevenção, e somados a isso alguns cuidados podem minimizar os riscos, tais como: manter o antivírus do seu computador sempre atualizado, não abrir arquivos de origem suspeita, ter o  firewall (dispositivo de segurança) sempre ativo, não fornecer dados pessoais a desconhecidos, não aceitar pedidos de amizades nas redes sociais de pessoas desconhecidas, configurar seus perfis como privado, não aceitar pedidos para conhecer pessoalmente amigos virtuais,  discrição com as fotografias, restringindo o acesso a elas etc.

A união de forças entre escolas e pais na prevenção e intervenção das agressões é fundamental para que haja uma efetiva conscientização dos jovens. Um diálogo aberto com crianças e adolescentes ajuda no aprendizado, mostrando que os valores não podem ser deixados de lado, tanto na vida on-line quanto na off-line. No mundo virtual, não há anonimato: criar fakes (perfis falsos) nas redes com intuito de difamar usuários, bem como outras formas de constranger as pessoas, traz consequências, pois é possível rastrear o computador do agressor e chegar à sua identidade, e isso deve ser amplamente divulgado e discutido.

E se, apesar de todas as precauções e diálogo, nos depararmos com bullying ou cyberbullying, resta darmos uma atenção especial à vítima e também ao agressor, minimizando a dor do primeiro e procurando entender o segundo para ajudá-lo, já que, de modo geral, o agressor apresenta um comportamento hostil por motivos que escondem medos, inseguranças e carências.

Por Viviany Cruz

Publicação:

Sobre o autor

Viviany Cruz

Socióloga formada pela PUC-SP, atua como analista de mídias digitais na Editora Educacional.

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