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O centenário palácio da Arte: uma joia destinada ao Teatro, à Música e à Dança

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“Faltava-te este palácio, cidade amada! No teu renascimento esplêndido, faltava esta afirmação do teu gênio artístico!” Esse trecho do discurso do poeta Olavo Bilac, proferido na inauguração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 14 de julho de 1909, retrata de maneira apaixonada a abertura de um espaço requintado para a apreciação da arte e da cultura na então capital brasileira. Naquela época, o Rio de Janeiro passou por uma verdadeira renovação. Entre 1902 e 1906, durante os mandatos do presidente Rodrigues Alves e do prefeito Pereira Passos, a cidade se modernizou, se transformou totalmente, urbanisticamente falando. A população assistiu à construção de avenidas retilíneas, obras de saneamento, bairros insalubres foram demolidos, tudo com o objetivo de promover o embelezamento do espaço urbano. E, no início do século passado, quando se falava em modernidade, beleza e requinte, a França era a referência. Paris serviu de inspiração para a renovação urbanística do Rio de Janeiro, uma tendência que se estendeu até pouco depois de 1910, ditando os conceitos dos projetos de arquitetura, entre eles, o do Theatro Municipal. Pedra mais preciosa da coroa da rainha das cidades, nas palavras de Bilac, o Theatro Municipal foi inspirado na Ópera de Paris, de Charles Garnier. O autor teatral Arthur Azevedo foi o mentor de uma campanha, em 1894, para a construção de um teatro que servisse de sede para uma companhia municipal. Sua ideia virou Lei Municipal, que instituiu a cobrança de uma taxa para financiar a obra. Arrecadou-se o dinheiro, mas teatro que é bom, nada… Somente em 1903, na gestão do prefeito Pereira Passos, lançou-se o edital de um concurso que escolheria o projeto para a construção do Theatro Municipal. Ficaram empatados dois projetos: o Áquila, do engenheiro Francisco de Oliveira Passos, filho do então prefeito do Rio; e Isadora, do arquiteto francês Albert Guilbert. Polêmicas à parte, pois muito se insinuou sobre o favoritismo do projeto Áquila devido ao fato de o autor ser filho do prefeito, entre outros argumentos, decidiu-se fazer a fusão dos dois projetos vencedores. Iniciaram-se, em 1905, as obras daquele que seria o maior teatro e palco principal da atividade lírica e teatral da então capital do Brasil. Mármores italianos e belgas nas áreas interna e externa, cobre com pátina dourada na cobertura, ônix, bronze, cristais, espelhos, maquinaria de palco, tudo importado da Europa. Também do Velho Continente chegaram artesãos para fazer os vitrais e mosaicos, e, para a decoração do edifício, foram convocados os mais importantes pintores e escultores da época, como Eliseu Visconti, Rodolfo Amoedo e os irmãos Bernadelli. A obra durou quatro anos, terminando na gestão do prefeito Inocêncio Serzedelo Correa. Daí em diante, os amantes da arte puderam se deleitar com as brilhantes apresentações de artistas renomados. No canto lírico, Enrico Caruso, Maria Callas, Renata Tebaldi, Jessie Norman e Kiri Te Kanawa; como companhias teatrais, a Comèdie Française e o Théatre Nacional Populaire, o Piccolo Teatro di Milano e o Teatro Stabile della Città di Genova; e na dança, Nijinsky, Isadora Duncan, Ana Pavlova, Margot Fonteyn e Barishnikov, entre tantos outros. Na década de 30, o Theatro Municipal passou a contar com orquestra, coro e corpo de bailes próprios, somando, hoje, cerca de 350 artistas entre músicos, cantores e bailarinos. A partir da década de 40, foi palco de mais de 5 mil concertos sinfônicos e recitais, regidos por nomes consagrados da música internacional, como Richard Strauss, Enrich Kleiber, Leonard Bernstein, Arturo Toscanini e Zubin Mehta.
Entre concertos e consertos – o show tem de continuar
E nesse abrir e fechar de cortinas, num intenso movimento artístico e cultural de altíssima qualidade, já se passou 100 anos de glamour. Logicamente, o tempo deixou suas marcas no pomposo Theatro Municipal, que agora passa pela sua quarta reforma. A primeira ocorreu em 1934, ampliando sua lotação original, que era de 1.739 espectadores, para 2.205 pessoas. Outras reformas se seguiram, deixando o teatro com a sua capacidade atual: 2.361 lugares. Em 1975, a instituição foi submetida a obras de restauração e modernização de suas instalações, reabrindo em 15 de março de 1978. Com o intuito de proporcionar melhores condições para os ensaios dos espetáculos e abrigar mais confortavelmente os corpos artísticos (Coro, Orquestra e Ballet), foi dado início, em 1996, à construção do Edifício Anexo, sua terceira reforma. A quarta e atual reforma é um presente de aniversário para o Theatro Municipal, oferecida pela população do Rio de Janeiro, por intermédio do governo do Estado, e por empresas estatais e privadas, com incentivo da Lei Rouanet. Mas, inegavelmente, o grande beneficiado será o público. O BNDES, a Petrobras, a Eletrobrás e a TV Globo são os grandes patronos dessa reforma, pois contribuíram com as maiores cotas do custo da obra, que contou, também, com outros apoiadores, como a Vale do Rio Doce, o Bradesco e a Embratel. “O Theatro Municipal é um pilar da cultura brasileira, e poder comemorar seu centenário com uma reforma histórica, que o devolverá a seu viço original, é também uma forma de homenagear o trabalho de todos os artistas que trabalharam ou trabalharão no teatro e de presentear o público do Rio de Janeiro”, celebra a Secretária de Estado de Cultura, Adriana Rattes. Iniciadas em 2008, as obras devem consumir cerca de R$ 60 milhões. Diversos consultores e empresas especializadas realizam um trabalho minucioso, coordenados pela Fundação Theatro Municipal, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inpeac). Essa iniciativa é fruto do projeto Theatro Municipal Centenário – Restauração e Modernização, criado pela Secretaria de Estado da Cultura do Rio de Janeiro com o objetivo de comemorar os 100 anos do teatro, colocando-o no mesmo nível de qualidade dos melhores estabelecimentos do mundo. “É uma honra e um presente estar à frente do Theatro num momento tão importante de sua história, conduzindo uma obra que vai devolver ao Municipal toda a nobreza que ele tem e que merece ter intacta. É muito bom estar ao lado da equipe que tenho aqui, tão grande e tão competente, tanto na administração quanto na programação, assim como as pessoas que cuidam da obra. Agradeço à secretária Adriana Rattes e ao governador Sergio Cabral por terem entregue a joia da coroa em minhas mãos”, diz a presidente da Fundação Theatro Municipal, Carla Camurati. Até meados de novembro de 2009, quem passar pela Cinelândia ainda vai se deparar com o canteiro de obras armado para devolver ao Theatro Municipal sua beleza original. Porém, no dia do seu aniversário de 100 anos, o público pôde matar a saudade da grandiosidade do Theatro Municipal. Nos espaços não afetados pela reforma, foi organizada uma exposição que lembrou os principais momentos da casa e sua história, reunindo cerca de mil fotos, vídeos, documentos, plantas, croquis e detalhes de peças decorativas, além de imagens de artistas que desfilaram pelo palco centenário. Ainda no dia 14 de julho, em um palco montado em frente ao estabelecimento, várias atrações animaram e emocionaram as pessoas que passavam pela Cinelândia, as quais puderam assistir às apresentações do Ballet do Theatro Municipal, com a presença das principais estrelas do seu corpo de baile, incluindo a bailarina Ana Botafogo; e o Coro e a Orquestra Sinfônica do Theatro interpretando um repertório franco-brasileiro, com regência do maestro Roberto Minczuk e a presença de dois importantes nomes da música lírica internacional: o tenor argentino Marcelo Alvarez e a soprano coreana Sumi Jo. Em seu primeiro centenário, coincidentemente ou não, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, além de se firmar como espaço destacado para a arte e a cultura no Brasil, também prestou sua homenagem à França, para não deixar cair no esquecimento as brisas parisienses que sopravam em seu nascimento: foi inspirado na Ópera de Paris, inaugurado no dia da Queda da Bastilha – data nacional francesa –, e completa um século de história justamente em 2009, Ano da França no Brasil. Le grand finale de un magnifique concert.

Por Vagner Apinhanesi

Publicação:

Sobre o autor

Vagner Apinhanesi

Jornalista na Editora Educacional.

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