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O ensino de gramática – conceitos da análise sintática em sala de aula

Edição Guia escolas

Por Joice Soares Ribeiro*

Desde a publicação da nova BNCC, nós, professoras e professores, procuramos readaptar nossos currículos para que as exigências contidas no novo documento sejam atendidas. Não só como forma de “cumprir” uma série de requisitos curriculares e de conteúdo, já que a discussão no âmbito pedagógico passa a ser também sobre como nos deparamos com os desafios, cada vez maiores, dentro da sala de aula em relação a como mobilizar os estudantes, principalmente, em meio a tantos distratores do mundo contemporâneo. Repensar as nossas práticas, então, torna-se mais do que atender à legislação educacional, mas, principalmente, é um ato de autocrítica à prática docente, que deve sempre se voltar à formação crítica, moral e intelectual dos alunos e alunas.

Assim, tendo em vista a recorrente reclamação do corpo discente quanto ao conteúdo de gramática, precisei repensar de que modo o estudo sobre a própria língua materna pode ser, também, a apresentação a um mundo desconhecido pela maioria dos estudantes e de que modo o conhecimento de algo considerado “natural” a eles é uma maneira de transformar-se em um cidadão mais consciente sobre as mensagens que o cercam. Pois é nosso papel como educadores não somente preparar o aluno para os vestibulares e mercado de trabalho, como também apresentar as possibilidades de entender a sua própria realidade e a realidade de outros cidadãos para a formação de uma sociedade mais justa a todos.

A partir da apresentação da linguagem como instrumento de comunicação, persuasão e de transformação dos seres humanos, os alunos e alunas começaram a perceber que a gramática não é apenas um conjunto de regras que precisamos seguir para atingirmos o bom falar, mas que o domínio das diferentes possibilidades de estruturar seus enunciados poderia dar novos sentidos e intencionalidades aos textos que produziam. Começamos a prática desse novo olhar à gramática nas aulas sobre o conceito de Sujeito Sintático.

Antes mesmo de saberem que iriam aprender sobre esse novo conceito, os alunos e alunas dos 8os anos do Colégio Sion Higienópolis, em São Paulo, foram divididos em seis grupos e desafiados a criarem períodos que pudessem ser ditos em contextos comunicativos diferentes: contar uma fofoca, uma manchete de jornal sobre um desastre natural recente, o título de um texto para tutorial de jogos na internet, um período que iniciasse uma carta aberta dos estudantes. Enfim, os grupos formados precisavam criar frases que atendessem à situação comunicativa destinada a cada um deles.

No começo, os grupos ficaram receosos quanto à flexibilidade da atividade, já que nenhuma regra de uso de linguagem foi imposta a eles: os alunos não precisavam aplicar nenhum conceito de gramática específico ou fazer uso obrigatório da norma padrão da língua, eles apenas precisavam se atentar ao contexto comunicativo, pois, em um jornal, por exemplo, a linguagem utilizada é mais formal que em um tutorial de games em blogs da Internet.

Com a familiarização da atividade e com o distanciamento do pensamento de que eles têm sempre que atingir as nossas expectativas de docente, os alunos se empenharam em escrever frases e períodos que faziam parte do universo que eles mesmos conheciam. Após todos os grupos finalizarem essa primeira parte, compartilhamos o produto de cada um deles em lousa e passamos a fazer uma análise do motivo pelo qual os grupos escolheram utilizar os sinais de pontuações, ou a gíria, ou o caráter mais sensacionalista nas frases que foram apresentadas.

Criamos então um debate com toda a sala, no qual fomos discutindo sobre o porquê de alguns jornais não muito confiáveis, muitas vezes, não explicitarem quem fez determinada ação ou disse determinada frase. Ou, até mesmo, a opção que se faz, algumas vezes, de explicitar o nome do responsável por alguma ação como forma de chamar atenção para essa pessoa. Assim, já fomos introduzindo, então, o conceito de Sujeito Sintático mais amplo: aquele que faz ação verbal expressa em uma oração. Além de serem introduzidos a esse conceito de maneira mais crítica e próxima a realidade deles, os alunos também já perceberam que na escolha de determinado tipo de Sujeito, nos vários discursos que são criados socialmente, há sempre uma intencionalidade e de que a aprendizagem da gramática é uma ferramenta de domínio da língua que possibilita a transformação dos discursos.

Com a mobilização por meio de produções feitas por eles mesmos, e pensando no uso da linguagem como instrumento de criação de diferentes sentidos, pude perceber que o engajamento dos alunos durante a segunda parte (exposição teórica do conteúdo) ficou maior. Eles passaram a se questionar mais sobre em qual contexto as diferentes classificações de Sujeito poderiam ser utilizadas, além de terem mais facilidade de identificar o grupo sintático Sujeito durante as análises, mesmo que as orações não apresentassem a ordem direta, como estamos acostumados a ver.

Essa aproximação proposta foi um teste, de fato, nas aulas sobre esse conteúdo gramatical específico, e também se estendeu ao restante das aulas relacionadas ao estudo sintático da língua. Os alunos e alunas têm cada vez mais se distanciado da ideia de que a gramática serve apenas para padronizar e “atrapalhar” a comunicação e, na verdade, começaram a entender que todo discurso criado tem escolhas conscientes feitas pelo enunciador e que o domínio das possibilidades linguísticas tornam-nos falantes mais compromissados com as mensagens que queremos passar.

Obviamente, não foi um processo fácil, pois demandou de mim também uma pesquisa ampla e compromissada sobre as Teorias de Discurso, Linguagem e Comunicação. Foi preciso desconstruir os procedimentos que antes adotava em relação ao ensino de gramática, quando apenas me detinha a ensinar meus alunos e alunas a saberem identificar os grupos sintáticos para que soubessem fazer uma boa análise sintática. Foi preciso que eu também me mobilizasse em relação às nuances do ensino e do modo de ver a gramática escolar, além de pensar que o meu papel como professora de Língua Portuguesa é ampliar o olhar de meus estudantes para as possibilidades de interpretação e de compreensão melhor do mundo que nos cerca. O ensino, então, deixa de ser somente aquilo que aparece nos livros didáticos e passa a ser a porta de entrada para um universo que só a escola e nós, educadores conscientes e críticos do nosso trabalho, podemos abrir aos alunos e alunas.

Para saber mais sobre o Colégio Sion, acesse https://bit.ly/30qPUxo.

*Joice Soares Ribeiro é natural de São Luiz do Paraitinga, interior de São Paulo. Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, atua na área da Educação desde 2014. Já lecionou em cursos populares e diversas escolas em São Paulo. Hoje é professora de Língua Portuguesa dos oitavos anos do Colégio Sion Higienópolis, em São Paulo.

Publicação:

Sobre o autor

Vagner Apinhanesi

Jornalista na Editora Educacional.

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