Espaço educacional
Textos sobre educação publicados no Guia Escolas
O prazer e o aprender na leitura, Edimara de Lima
O prazer e o aprender na leitura, Edimara de Lima*A escola sempre viu na leitura um instrumento de aprendizagem, mas poucas a vêem como instrumento de prazer. Nada é comparável ao brilho nos olhos, ao sorriso ou à lágrima provocada por um texto, pois a relação que se estabelece entre autor e leitor é de uma intimidade profunda. A leitura subjetiva de um texto está embasada nesta relação e muitos pontos são interligados: a experiência de vida do leitor, seu universo vocabular, seu conhecimento de mundo, a cultura que está inserido; um complexo de variáveis que produzem inúmeras possibilidades de interpretação.
Nunca me esqueço da exclamação de uma menina de quatro anos ao ouvir os primeiros parágrafos de João e Maria: “Essa mãe é ‘pirada’, imagine abandonar os filhos na floresta, ela precisa de uma psicóloga!” Esta crítica não faria o menor sentido aos Irmãos Grimm, que publicaram seus primeiros contos no início do século 19.
A variedade de gêneros e a infinitude de autores constituem um leque de opções que podem atender à individualidade de leitores, o único obstáculo que se apresenta é a impossibilidade ao acesso. A família e a escola são os caminhos óbvios para adentrar à leitura, mas por ironia também são os ambientes que constituem os maiores entraves; muitas famílias por desconhecimento – e não por restrição econômica – não usufruem de instituições que oferecem oportunidades de acesso, o uso de bibliotecas está sempre abaixo das expectativas de seus administradores. Os sebos ainda são encarados como livrarias de segunda classe, e as bancas de jornais não são aproveitadas na sua potencialidade. Os quartos de crianças e adolescentes não incluem na sua decoração uma poltrona e um bom foco de luz, preparando um ambiente convidativo e estimulador à degustação de textos.
Descobrir gêneros e autores que atendam à individualidade de filhos e alunos é uma arte a ser desenvolvida por pais e professores; nem todos apreciam os contos de fadas ou histórias em quadrinhos, por isso as visitas às bancas de jornais e livrarias são essenciais e devem ser feitas com tempo e bom humor. Meu neto de oito anos rejeitou todos os contos de fadas com o seguinte comentário: “São babacas, só têm príncipes e princesas que se beijam... ECA!”. No entanto, se encantou com as lendas que contam a criação do mundo, sob a ótica de diferentes culturas.
Estar atento às exclamações e comentários de crianças e jovens é missão possível e enriquecedora para delinear os caminhos prazerosos da leitura, mesmo quando estas provocam lágrimas. Precisamos aprender a ouvir para que nossos filhos e alunos incluam a leitura entre seus hábitos.
O amor aos livros se constrói devagar, investindo-se todos os dias neste patrimônio que não pode ser saqueado por outrem, pois fica gravado no espírito. A televisão e os games são sérios concorrentes à leitura, mas podemos construir pontes entre estes e em vez de perdas, conseguir ganhos. Aprende-se a amar na convivência diária e com a prática adquirem-se hábitos.
Nossos filhos e alunos vivem em um mundo diferente daquele que vivemos na infância e juventude e o que nos encantou pode parecer simplório sob a ótica deste novo milênio, mas os clássicos são eternos e fornecem referências culturais em qualquer época e em qualquer lugar. Harry Potter é o herói da atualidade, mas nem por isso Narizinho ou Miguel Strogoff deixam de encantar. Para entender História ou antigos conceitos geográficos, Lobato e Júlio Verne são muito melhores que os chamados textos didáticos, pois oferecem colorido e tramas que enriquecem a alma.
As teorias de aprendizagem falam na necessidade da contextualização para que a verdadeira e sólida aprendizagem aconteça. Ninguém contextualiza melhor do que um bom escritor. As bibliotecas deveriam ser o centro da escola, fazendo da leitura o cerne do aprendizado. Bons textos nos marcam e promovem aprendizagens formais e informais; e só poderemos apreciar Guimarães Rosa se na infância fomos conduzidos por Tatiana Belink, Lobato e tantos outros, que nos mostraram um mundo real e fantástico, rico na diversidade, plural em idéias e conceitos.
A leitura é um ato solitário e provocativo e permite a cada um colorir o texto com nuances muito particulares. Ao assistir à encenação de um texto, muitos se desapontam, pois na cena vemos as cores vistas pelo diretor – teatral ou cinematográfico – e nem sempre os nossos matizes coincidem com os apresentados. Quando li O Tempo e o Vento, de Veríssimo, construí uma imagem do Capitão Rodrigo, que muito se aproximou da versão dada por Tarcisio Meira na série televisiva, mas a minha Bibiana era mais próxima da minha avó do que a atriz que a personificou. Como leitores, somos coadjuvantes do autor e a “minha” leitura é única e incomparável.
Hoje, as livrarias, bibliotecas e sebos são ricos e nos apresentam um universo maravilhoso que se disponibiliza a todos que dominam a palavra escrita. Através dos símbolos gráficos podemos viajar por tempos que já se foram, por espaços longínquos, por culturas que já feneceram ou até mesmo descobrir tesouros que estão próximos de nós e nos são desconhecidos.
*Edimara de Lima é psicopedagoga e coordenadora pedagógica do Congresso Saber 2006
Publicado em 01/01/2007











