Espaço educacional
Textos sobre educação publicados no Guia Escolas
Educação para o Desenvolvimento Sustentável Rasgando as velhas cartilhas da educação ambiental
Educação para o Desenvolvimento Sustentável Rasgando as velhas cartilhas da educação ambientalPor Nabil Onaissi*
Os impactos sociais e ambientais promovidos pelo modelo de desenvolvimento praticado nas últimas décadas têm sido um tema recorrente. A economia produz consequências desastrosas - a população urbana aumenta com rapidez promovida pela massificação das atividades agrícolas monocultoras; as calamidades ambientais se agravam, principalmente pela pressão das aglomerações urbanas que exigem cada vez mais energia, mobilidade, alimentos, e assim o mundo, a cada dia que passa, torna-se mais insustentável. O consumo dos recursos naturais tem se mostrado acelerado, ineficiente e mal planejado, não dando tempo ou condições para que estes se restaurem.
Esse uso indiscriminado dos recursos naturais pela sociedade contemporânea vem colocando em risco a própria sobrevivência da humanidade neste planeta. Isso fez com que, nesse mesmo contexto, emergisse um tema nos anos 60 e que teve seu ápice em 1992, com a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento – Rio92, o Desenvolvimento Sustentável, um termo que tem sua base em duas linhas de pensamento: a primeira, na concentração de metas de desenvolvimento econômico, e a segunda no controle dos impactos das atividades humanas sobre o meio ambiente.
Em busca do Desenvolvimento Sustentável, instituições e organizações do mundo todo têm se movimentado na tentativa de reverter o processo de degradação ambiental e promover novas posturas em relação ao meio ambiente através
de mecanismos formais e não-formais da Educação Ambiental.
Sinais de mudanças
A grande quantidade de conferências, congressos, seminários e outras formas de debates públicos sobre temas ligados às questões ambientais é um sinal claro de que a sociedade humana está em processo de mudanças. Como consequência, observa-se o aumento no grau de exigência dos clientes em relação a produtos e às formas de produção e desempenho ambiental de algumas organizações, demonstrando que o aumento do nível de consciência ambiental do consumidor, mesmo que de forma tímida, contribui para estas mudanças de postura.
Assim, a sobrevivência das organizações no mercado atual depende, mais do que nunca, de sua competitividade, conquistada além da produtividade, pela qualidade ambiental da empresa e por suas posturas em relação à sociedade na qual está inserida. Isso significa que a crescente competitividade no mundo dos negócios coloca em risco a vida das empresas que não questionarem seus métodos tradicionais de gerenciamento, desenvolvimento de novos produtos e conformidades com a legislação ambiental.
É neste sentido que o conceito de Desenvolvimento Sustentável, ao preconizar o equilíbrio entre o crescimento econômico, a equidade social e a preservação ambiental, busca concentrar-se no fortalecimento dos valores ecológicos do homem e na sua responsabilidade para com a coletividade e com as gerações futuras.
No entanto, considera-se que tal argumento somente pode ter uma base sólida com uma mudança radical no comportamento humano que por sua vez somente será possível através de uma “educação ambiental” em seu stricto sensu, ou seja, pela pesquisa e experimentação ativa dos princípios do desenvolvimento sustentável que superem as tradicionais metodologias de conscientização contemplativa trabalhadas na comunidade escolar.
Plantar velhas mudas ou novos modos?
Se no princípio da história a visão do Homem era teocêntrica, ou seja, tudo o que acontecia era responsabilidade ou desejo dos deuses, vemos perdurar até os dias atuais a visão antropocêntrica, na qual o Homem, como centro do universo, tudo pode e tudo faz para satisfazer aos próprios desejos.
E assim é o modelo de educação ambiental praticado na maior parte das escolas. O Homem como detentor do poder de salvar o planeta plantando mudas no Dia da Árvore, enquanto se varrem os pátios das escolas com mangueiras, luzes ficam acesas o tempo inteiro por falta de interruptores independentes em cada sala de aula, centenas de folhas de papel são descartadas diariamente e toneladas de alimento desperdiçado nas merendas. Um modelo que ensina a produzir vasos com garrafas pet, mas não orienta os alunos a economizar nos banhos que consomem rios de água, de energia e dinheiro de suas famílias.
Se compete à sociedade colaborar mutuamente para a construção de um projeto nacional de educação ambiental que respeite o enfoque humanista e democrático, a ética e o respeito à diversidade em todos os seus gêneros e aspectos, entendendo a qualidade ambiental como um valor inseparável do exercício de cidadania, cabe-nos a todos, pais, professores, mantenedores, servidores públicos ou privados, rasgar as velhas cartilhas, já viciadas e repletas de antropocentrismos, e implantar um novo modelo, biocentrista, em que o Homem se perceba como parte de um sistema onde a vida luta a favor da vida. Construído através de uma abordagem multidisciplinar, de visão holística, racional e emocional, que incentive as pequenas mudanças diárias nas atitudes, comportamentos e posturas, ou como nos ensina a educadora Edimara de Lima, por meio das Revoluções Mínimas, que tem o poder de transformar as condutas sociais de forma efetiva e perene. E para um novo modelo, um novo nome: educação para o desenvolvimento sustentável.
*Nabil Onaissi é jornalista com especialização em educação ambiental e desenvolvimento sustentável, professor universitário e consultor em responsabilidade social nos três setores. Presidente do Instituto Lótus, é um biocentrista convicto. nabil@lotusambiental.org.br
Publicado em 01/11/2009











