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Olhos para ver...

Olhos para ver...

Responsável por 43% dos transplantes no estado, o Banco de Olhos de Sorocaba desmente boato sobre desperdício de córneas

Por Vagner Apinhanesi

Atualmente, a sociedade vive a era da informação. A internet proporcionou o acesso rápido e fácil a qualquer tipo de notícia, encurtando a distância entre os países e as pessoas. O problema é que nem sempre a informação pode ser considerada conhecimento, pois, da mesma forma que se transmitem pela web fatos verídicos, dados fidedignos, também circulam boatos e todo tipo de lixo cibernético. Portanto, é necessário ter discernimento e senso crítico para avaliar o conteúdo que chega pelas telas do computador.
Uma das vítimas de boatos que circulam pela internet foi o Banco de Olhos de Sorocaba (BOS). Nos últimos sete anos, muitas pessoas têm recebido e-mails que começam com o depoimento de um médico contando que assistiu, deter-minada manhã, a uma reportagem na televisão sobre o Banco de Olhos de Sorocaba, dizendo que a instituição captava mais córneas do que o número de transplantes realizados e que o material sobressalente era desprezado.
Logo, a mensagem foi ganhando contribuições dos internautas, comprovando o dito popular “quem conta um conto aumento um ponto”, e, além de sobrarem córneas, estas eram jogadas no lixo. E por aí vai a imaginação do ser humano...
Algumas informações constantes no e-mail são verdadeiras, outras, não. O Banco de Olhos de Sorocaba realmente conta com membros da Maçonaria em sua diretoria e administração, o que ocorre em diversas outras instituições, públicas e privadas, no Brasil e em outras partes do mundo. O médico que assina o e-mail original existe mesmo, assistiu a uma reportagem sobre o BOS e criou uma mensagem para informar às pessoas interessadas em fazer um transplante de córneas que Sorocaba tinha um grande potencial nessa área.
A reportagem televisiva, veiculada em 2002, explicava que toda córnea captada é processada em exames de laboratório e, após a avaliação, encaminhada para trans-plante ou utilizada em pesquisa. Dizia, ainda, que o hospital tinha capacidade para fazer 200 trans-plantes e fazia, na época, apenas 120. As córneas não utilizadas em Sorocaba eram encaminhadas a outras localidades, pois esses tecidos podem se manter em condições de uso por até 15 dias, desde que conservados adequadamente.
O médico, entretanto, com o objetivo de servir à população, principalmente pessoas que aguardavam na fila dos transplantes, publicou na internet uma nota, sem data, onde procurou simplificar os termos do texto para maior entendimento. Trocou a palavra “encaminhadas” por “desprezadas” e, rapidamente, houve a interpretação que o Banco de Olhos de Sorocaba estaria jogando córneas no lixo.
Quando soube do erro que havia cometido e da gravidade da situação, o médico enviou e publicou na internet seu pedido de desculpas, alegando que jamais pensou em prejudicar a entidade, mas apenas queria ajudar. Entretanto, como seu primeiro bilhete eletrônico não tinha data, até hoje, a notícia aparece e organizações de todo Brasil buscam informações a respeito.
Edil Vidal de Souza, administrador do Hospital Oftalmológico e do Banco de Olhos de Sorocaba, explicou que o e-mail foi ganhando novas informações conforme circulou pelas caixas postais.
“No início, não havia informação que o Banco de Olhos de Sorocaba tinha vínculo com a Maçonaria. Nas últimas versões que recebi, isso já era veiculado, até o telefone atualizaram, pois mudou o prefixo da região”, comenta o Souza.
Segundo o administrador do hospital, o e-mail poderia apresentar duas possibilidades, uma boa e outra ruim. “O lado ruim é que o e-mail poderia diminuir a quantidade de doações, coisa que não aconteceu, segundo constatamos. Já o lado bom é que muitas pessoas descobriram Sorocaba como um centro de referência na área oftalmológica. Conversei com vários pacientes que chegaram até nós e foram tratados devido a esse e-mail”, diz Edil.
Desde o episódio do e-mail equivocado, o hospital pratica-mente triplicou suas instalações. Hoje, é referência na área oftalmológica e o primeiro no Brasil em número de transplantes de córnea, além de possuir equipamentos de ponta e ser o primeiro da América Latina a realizar o procedimento totalmente a laser. Além de possuir certificações ISO 2000-2001 e da ONA – Organização Nacional de Acreditação, reconhecida pelo Ministério da Saúde, recebeu por dois anos consecutivos o “Oscar dos Transplantes”, oferecido pela Secretaria de Saúde do Governo do Estado de São Paulo. Por ele passam, diariamente, cerca de 2 mil pessoas, sendo 90% através do SUS – Sistema Único de Saúde.

AMPLIANDO A VISÃO
Nos últimos dois anos, o tempo de espera para realização de transplante de córnea em São Paulo caiu 90,2%, segundo informação da Secretaria de Estado da Saúde com base nos dados da Central Estadual de Transplantes.
Quem passou por transplante de córneas em agosto deste ano aguardou, em média, 20 dias para fazer a cirurgia, enquanto no mesmo período de 2007, o tempo de espera foi de cerca de sete meses. Em 2008, os transplantados aguardaram, em média, 123 dias para realizar a operação. O tempo varia conforme a região do estado onde o paciente está inscrito.
Foram realizados 3.995 trans-plantes de córnea no estado de São Paulo, de janeiro a agosto deste ano. A fila de espera por um transplante está diminuindo progressivamente, e, atualmente, conta com apenas 39 pacientes ativos – pessoas consideradas aptas a realizar a cirurgia.
Sorocaba realiza 43% dos trans-plantes de córnea do estado e não há fila de espera. Geralmente, após a indicação do médico, o paciente passa por um procedimento que dura de 7 a 45 dias, em média – período para a realização dos exames e para agendar o transplante.
As campanhas de doações são fundamentais para o sucesso do trabalho do Banco de Olhos de Sorocaba. Ações de marketing e publicidade sempre estiveram entre as estratégias da instituição, que criou o Cartão do Doador e realiza um trabalho de captação com equipes em 30 hospitais em todo o estado, abordando familiares e informando sobre a importância da doação de córneas.
A legislação brasileira sobre doação de órgãos e tecidos só permite o ato após a morte e com autorização dos familiares. Neste sentido, o Cartão do Doador representa o desejo dessa ação em vida, para que a família se conscientize e confirme a vontade. No cartão, também pode se registrar o desejo da doação de outros órgãos, além da córnea.
O Cartão do Doador traz informações das instituições responsáveis pela captação, de acordo com a região, e pode ser solicitado por pessoas de qualquer lugar do Brasil, pelo site www.bos.org.br ou pelo Serviço de Atendimento ao Doador, telefone: 0800 770 3311. O documento é enviado pelo correio, sem nenhuma despesa ao solicitante.



Publicado em 01/11/2009

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